Você não é o único
Depoimentos
Quem está no fundo costuma achar que é o único idiota do mundo que fez aquilo. Não é. As histórias abaixo se repetem todos os dias neste país — e, se quiser, conte a sua para quem vai chegar depois de você.
Já recaí quatro vezes. Escrevo isso de propósito, porque só vejo relato de quem parou e deu tudo certo, e isso me fazia sentir um fracassado. A primeira vez eu fiquei 30 dias. Depois 4 meses. Depois 11 dias, o que foi o pior baque. Agora estou em 1 ano e 2 meses. O que mudou na última tentativa não foi força de vontade, foi eu ter parado de esconder. Nas outras vezes eu recaí e passei semanas mentindo até virar bola de neve. Dessa vez, na única noite em que quase apostei, eu mandei mensagem pro cara do grupo às 2 da manhã. Ele respondeu 'tô aqui' e a gente conversou até passar. Só isso. Foi só isso.
Meu filho tem 19 anos e começou a apostar aos 16, com a conta de um amigo mais velho. Descobri quando sumiu dinheiro da minha carteira pela terceira vez. Minha primeira reação foi gritar, ameaçar e tomar o celular. Não funcionou nada — ele só ficou melhor em esconder. O que mudou o jogo foi eu parar de acusar e começar a perguntar. Numa dessas conversas ele desabou e disse que devia R$ 4 mil pra três pessoas da escola e estava com medo. Hoje ele faz terapia pelo posto e a gente conversa sobre dinheiro abertamente, coisa que nunca fizemos na minha família. Se você é mãe e está lendo isso: a bronca fecha a porta, a pergunta abre.
Meu problema não era perder, era não conseguir parar quando ganhava. Uma vez ganhei R$ 14 mil numa noite e devolvi tudo em quatro dias, mais R$ 6 mil que não tinha. Demorei pra aceitar que eu era viciado porque eu 'ganhava bastante'. Ninguém me contou que o problema não é a sorte, é a repetição: quanto mais você joga, mais perto do prejuízo você chega, é matemática. Parei em janeiro. Uso um contador no celular e olho todo dia de manhã. Hoje são 213 dias. Continuo com vontade às vezes, principalmente em dia de jogo grande, mas aprendi que a vontade é uma onda: se eu não fizer nada por vinte minutos, ela passa sozinha.
Cheguei no ponto de pesquisar se meu seguro de vida pagava. Escrevo isso porque naquela noite eu tinha certeza de que era a decisão mais racional do mundo: eu valia mais morto do que devendo R$ 80 mil pra minha família. Liguei pro 188 às três da manhã sem esperança nenhuma, só porque não aguentava mais o silêncio. A pessoa do outro lado não me deu bronca, não me deu conselho, só ficou ali. Falei por quase uma hora. Isso foi há dois anos. A dívida hoje está em R$ 31 mil, parcelada, e minha filha nasceu em março. Aquela conta que eu fiz na madrugada estava errada em tudo.
Na minha época era bicho e caça-níquel. Achei que estava curado porque parei em 2009. Aí veio esse negócio no celular e em 2024 eu recaí, aos 56 anos, com a aposentadoria. É humilhante ter idade pra ser avô e estar escondendo extrato da mulher. Perdi R$ 40 mil que eram pra reforma da casa. Meu neto foi quem instalou o bloqueador no meu celular e ficou com a senha. Não tenho vergonha de dizer que precisei disso. Estou há oito meses limpo. Recaída depois de quinze anos existe, e não quer dizer que os quinze anos não valeram nada.
Eu era o cara dos sinais. Entrei num grupo de Telegram que prometia entradas certas, paguei R$ 97 pelo acesso e nos primeiros dias realmente ganhei. Depois entendi: o cara ganhava comissão em cima do que eu depositava. Quanto mais eu perdia, mais ele recebia. Perdi R$ 23 mil, a maior parte de empréstimo. Cheguei a apostar o dinheiro do aluguel duas vezes. O que funcionou pra mim foi entregar o cartão pro meu irmão e baixar o Pix pra R$ 50 por dia. Parece besteira, mas o vício age no impulso — quando eu tinha que esperar 24 horas pra aumentar o limite, a vontade já tinha passado.
Não sou eu que aposto, é meu marido. Escrevo porque quando eu procurei ajuda só achava coisa pra quem joga, nada pra quem está do lado. Eu vivia checando o extrato às escondidas, contando dinheiro na carteira dele, virando detetive. Paguei duas dívidas dele achando que ia acabar. Nas duas vezes ele voltou a apostar em menos de um mês, e eu demorei pra entender que quitar a dívida tirava a única consequência que ele estava sentindo. Hoje as contas são separadas, eu administro o que entra e ele recebe um valor por semana. Eu entrei num grupo de familiares. Ele está há cinco meses sem apostar. Não sei como vai terminar, mas eu voltei a dormir e as crianças voltaram a ter uma mãe inteira.
Eu peguei dinheiro do caixa da empresa onde trabalhava. Foram R$ 12 mil ao longo de cinco meses, sempre com a certeza absoluta de que ia devolver antes de alguém notar. Não devolvi. Fui descoberto, demitido por justa causa e quase processado. Meu chefe, por algum motivo que até hoje eu não entendo, aceitou um acordo de parcelamento em vez de me denunciar. Estou escrevendo isso porque sei que tem gente lendo agora que está exatamente nesse ponto, achando que consegue repor antes. Você não vai conseguir. Para hoje e conta pra alguém hoje, porque a diferença entre um problema financeiro e um problema criminal são poucas semanas.
Todo mundo acha que é coisa de homem. Eu sou mulher, tenho 41 anos, sou enfermeira e perdi R$ 60 mil no joguinho do tigre em oito meses. Começou na madrugada do plantão, pra passar o tempo. Virou a primeira coisa que eu fazia ao acordar e a última antes de dormir. Peguei empréstimo consignado escondida do meu marido e vendi joias que eram da minha mãe. Contei pra minha irmã num domingo, achando que ela ia me odiar. Ela chorou junto e no dia seguinte me levou no CAPS. Estou em tratamento há sete meses. Não recuperei as joias, mas recuperei o direito de olhar as pessoas no olho.
Comecei apostando no jogo do meu time, R$ 20 com os amigos no bar. Um dia ganhei R$ 800 numa múltipla e foi o pior dia da minha vida, porque foi ali que meu cérebro aprendeu que dava. Em dois anos eu tinha torrado o carro, o dinheiro da obra do banheiro e estava devendo em quatro bancos. Minha esposa descobriu quando o cartão foi recusado no mercado, na frente da minha filha. O que me fez parar não foi vergonha, foi cansaço. Eu não dormia mais. Fiz a autoexclusão numa terça-feira de manhã chorando, e entrei num grupo online na mesma semana. Hoje faz um ano e quatro meses. Ainda estou pagando a dívida, mas eu durmo.
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